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artigos tecnicos
Luto, melancolica e suicídio
Por Ale Esclapes
Mês passado recebi a seguinte notícia vinda de um site especializado em rock:
“ Fãs de gothic black metal cometem suicídio na França • 29/09/2005
No último dia 23/9, duas adolescentes fãs de black metal e gothic cometeram suicídio em um subúrbio de Paris, França (na foto, o local da tragédia). Marion e Virginie, ambas com 14 anos de idade, foram ao apartamento de um amigo chamado Benjamin, no bairro de classe média parisiense de Ivry-sur-Seine, disseram que tinham uma surpresa e pediram ao amigo para fechar os olhos e esperar do lado de fora do quarto. "Então, elas disseram para eu entrar no quarto e, quando entrei, as vi na janela, prontas pra pular. Não pude fazer nada. Elas pularam", disse Benjamin à imprensa local. No bolso de uma delas, um bilhete lacônico: "A vida não vale a pena". As adolescentes eram obcecadas pela morte, só usavam roupas góticas e uma delas tinha um blog em que só falava de sexo e morte. O último registro dela no blog era uma letra do grupo francês de black metal Anorexia Nervosa, chamada Suicide Is Sexy: "Eu odeio você, eu vomito na sua alma e na sua família/Morte aos seus pais, tortura e estupro para suas crianças." Jacky Cordonnier, autoridade francesa que nos últimos anos se especializou em acompanhar góticos aolescentes, lamentou o fato: "É triste, mas o suicídio não me surpreende mais. Há essa ligação com o satanismo, é um movimento estruturado e sem escrúpulos, que tenta manipular os jovens e acaba levando-os a esse tipo de comportamento extremo."”
Vários são os pontos que podemos levantar nessa notícia, e mais chocante que o suicídio de duas jovens de 14 anos, seria uma explicação desse fenômeno, pelo menos para a grande maioria das pessoas. Isso porque, dado o contexto da notícia e seus contornos, existe um inimigo oculto que permeia todos seus elementos: as ansiedades arcaicas, um dos conceitos mais representativos na obra de Melanie Klein. Outros elementos também são fundamentais para o desfecho dessa tragédia, como o luto e a melancolia, mas a argamassa que ligou todos eles, sem dúvida alguma se encontra no sentimento da inveja. Gostaria de analisar esses elementos periféricos antes de analisar as ansiedades arcaicas propriamente ditas.
Analisando as peças do quebra-cabeça
Primeiramente precisamos entender o conceito de “luto” dentro da psicanálise. Se observarmos, a dor do luto é tanto maior quanto mais íntima tiver sido a relação com aquele que faleceu. Isso não se dá por obra do acaso. Dentro de nós, existe uma representação psíquica de todos os elementos reais – vamos chamar essas representações de objetos internos, e os elementos reais de externos. O que acontece no luto é que existe um descompasso entre a perda do objeto externo e seus reflexos no objeto interno. Quando perdemos um ente querido, geralmente nos lembramos dele por vários dias, até que sua imagem, sua dor não fica mais tão presente em nossas mentes, de forma que podemos nos ocupar com nossos afazeres cotidianos e retornar a nossa vida normal. A esse processo de “morte” do nosso objeto interno damos o nome na psicanálise de “luto”. Mas é importante frisar que esse objeto nunca morre, pois o ego apenas retira sua energia, mudando-o de um objeto presente para uma lembrança presente. As lembranças demandam muito menos energia do ego que uma representação de um objeto externo.
A melancolia é um processo um pouco mais complexo, pois nesse caso a dor da perda é muito forte, ou pelo menos é mais forte do que o indivíduo consegue suportar. Nesse caso, numa defesa desesperada de equilibrar a dor, o ego se identifica, se põe no lugar do objeto perdido. O problema é que nesse processo o ego acaba sofrendo o mesmo destino que o objeto interno – o de tornar-se uma lembrança. O melancólico não chora apenas a perda do outro, mas a perda de si mesmo.
“No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego.” (Freud, 1917).
Esse conceito é muito importante para avaliarmos como alguma pessoa pode achar que a vida não vale mais a pena. Esses conceitos estão contidos na obra “Luto e Melancolia” de S. Freud.
Bom, pode-se perguntar o que a melancolia tem a ver com o caso do suicídio das meninas, uma vez que não é em nenhum lugar da noticia a perda de um ente querido. Nesse caso temos que analisar dois conceitos de Melanie Klein: das ansiedades (medo) persecutórias e as depressivas. Sentimos ansiedade persecutória quando, ao odiarmos o outro, principalmente quando este não satisfaz a TODOS os nossos desejos (como isso é impossível, invariavelmente tembém odiamos aqueles que amamos), acreditamos que ele também nos odeia. Sentimos ansiedade depressiva, quando percebemos que tanto amamos quanto odiamos o mesmo objeto, e temos medo de perde-lo ou que ele nos deixe de amar. Em outras palavras tememos por nossa vida quando sentimos ansiedade persecutória e tememos pela vida daquele que amamos quando sentimos ansiedade depressiva. Essas ansiedades estão presentes desde o nascimento até a morte, e são de caráter muito arcaico, são sentimentos muito infantis (primeiros seis meses de vida), e por isso com sentimentos muito primários: amor e ódio. Aqui se faz necessário analisar um pouco mais de perto esses conceitos.
Klein amplia o conceito de luto e melancolia de Freud, situando-os nos primeiros seis meses de vida da criança, sendo que nas demais ocasiões, o luto não seria nada mais que uma repetição desse luto original. Mas como funciona esse luto primário? A criança inicialmente não percebe a mãe como sendo uma só. Percebe uma boa e outra má. A mãe boa é aquela que lhe serve o leite quando ela quer, e a mãe má é aquela que não lhe satisfaz todos os desejos. Como é impossível servir a todos os desejos de uma criança, ela invariavelmente percebe uma mãe boa e uma mãe má. E como toda criança, ela ama a mãe boa e odeia a mãe má. O medo que a criança tem de que a mãe imaginária má possa revidar o seu ódio é o protótipo de toda a ansiedade persecutória. Quando mais tarde ela percebe que a ambas as mães são uma só, ela se sente muito mal de ter odiado essa mãe, e sente que pode perdê-la por isso. Esse é o protótipo de toda ansiedade depressiva.
Bom, mas ainda não sabemos o que isso tem a ver com o luto e a melancolia. Bom, imagine que uma criança desenvolva um ódio muito grande pela sua mãe imaginária má. Isso pode acontecer por diversos fatores que não vamos discutir aqui, apenas vamos partir nosso raciocínio dessa premissa. Se esse ódio for muito excessivo esse objeto pode ser percebido como perdido, morto. “No luto normal o indivíduo tem êxito em instalar a pessoa amada perdida dentro de seu ego, enquanto na melancolia e no luto anormal esse processo não é bem sucedido... Se os impulsos canibalescos são muito intensos, a introjeção do objeto bom malogra, e isso leva à doença.” (Klein, 1952, 101). Esta é a origem de algo que seria, grosso modo, a origem do protótipo da melancolia primária. Existem vários outros elementos técnicos, mas procurei manter somente os imprescindíveis para o entendimento da matéria.
Finalmente podemos chegar à inveja. Como já foi dito, a criança percebe invariavelmente uma mãe boa e outra má no seu mundo imaginário. O problema aqui é que ela também inveja a mãe boa, pela sua capacidade de gerar leite e outros filhos e deter uma relação diferenciada com o pai, entre outros fatores. Isso faz com que seu ódio aumente, e não somente a mãe é alvo dele, mas tudo aquilo de bom que ela pode gerar.
Um último fator é o da identificação coletiva. Identificamos-nos coletivamente quando temos algo em comum com o outro. Isso pode ser visto de uma maneira simples na vida: pessoas que gostam de xadrez, por exemplo, tendem a se reunir em clubes específicos. Mas estamos falando aqui muito mais que um gosto pessoal, e sim e de uma estrutura psíquica. Portanto, provavelmente essas meninas tinham em comum a mesma estrutura psíquica básica.
Juntando as peças do quebra-cabeça
Podemos agora junta juntar as peças do nosso quebra-cabeça:
a) Quando as meninas dizem: “A vida não vale a pena”, na verdade estão denunciando um estado melancólico. Simplesmente desistiram de viver, seus egos foram consumidos no trabalho de luto que vinham realizando desde a tenra infância. O que chama mais atenção é que essa melancolia nasce da inveja e do ódio do próprio indivíduo contra seu primeiro e único objeto de amor: a imagem de sua mãe boa. Essa estrutura psicológica é que liga essas duas meninas.
b) É interessante notar que na letra da musica, constante no blog de uma das meninas, tem o seguinte trecho: "Eu odeio você, eu vomito na sua alma e na sua família/Morte aos seus pais, tortura e estupro para suas crianças.". O que se verifica nessa letra é a profunda inveja e o ódio que esse o compositor possui de seus pais. Ele não só odeia sua mãe, mas também tudo de bom que ela possui como seus filhos e seu pai.
Análise
O que me chamou mais atenção é a falta de sensibilidade da polícia em relação ao caso. Atribuir ao mitológico o suicídio de duas pessoas não me parece uma atitude de caráter muito cientifico. Não me surpreende que a polícia venha desenvolvendo um trabalho em relação a esses grupos sem sucesso.
É importante frisar que toda esta análise foi baseada em UM CASO, e ela procura refletir, SOMENTE ESSE CASO, o que não significa que todos os suicídios, de forma geral, tenham os mesmos motivos. Muitas tentativas de suicídio podem ser simplesmente um meio para chamar a atenção daqueles que amamos para algo muito forte que nos incomodae que nos é insuportável, entre outros motivos.
Porém, imaginar que um grupo de rock pode levar pessoas ao suicídio também parece ser uma suposição no mínimo ingênua. Nesse caso todas as condições psicológicas já estavam presentes, e tanto o compositor da música quanto as meninas, tinham apenas em comum as mesmas dificuldades em relação a suas posiçõe depressivas.
Referências
FREUD, S. Luto e Melancolia. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Volume XIV (1917). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN, MELANIE Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê. Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1952). Rio de Janeiro: Imago, 1991.
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