Uma reflexão sobre " O Círculo" e a angustia sem fim do ser humano

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Por: Fernanda Nascimento1

A intensidade paradoxal que o filme provoca aprisiona o espectador em um movimento contínuo e atemporal ao mesmo tempo aborda temas como privacidade e ilusão do todo. Na etimologia a palavra círculo vem do latim circulus e originou a palavra ciclope.

Mae, personagem principal se apresenta como uma moça recém-formada e experimenta a vida familiar sem grandes esperanças. Depois de um cansativo dia de trabalho, retornar ao lar e encontrar-se com a esclerose múltipla do pai parece ser um desalento. A doença degenera todo o ambiente de Mae e não apenas o corpo do seu pai. O desejo da filha era ter capacidades financeiras para cuidar dele e retribuir o carinho recebido na infância. Ao ser contratada como estagiária pela empresa que leva o nome do filme ela se vê em meio a um sonho realizado. O tamanho do Campus é proporcional a magia que ele exala. Jovens bonitos, festas, bebidas e shows são uma pequena parte do que a empresa oferece além de boa remuneração. A empresa de internet é como um canto inebriante que paralisa e seduz a sonhadora. O presidente da companhia, interpretado por Tom Hanks se mostra capaz de fisgar os seus funcionários a ponto deles viverem em regime de escravidão, hiperconectados e pior, parecem apreciar essa vida. Jornadas de trabalhos exaustivas, muitas vezes sem dormir ou se alimentar capturados pelo poder do dinheiro e da aparência servem como massa de manobra para as intenções políticas do presidente do Círculo, o Senhor Eamon Bailey. Tudo é relatado e registrado pelos celulares e computadores da companhia e o Senhor Bailey desejava ir além e conectar todos os habitantes de todas as nações a ponto de não existir mais privacidade. Ele diz: “saber é bom, mas saber tudo é melhor” e assim cada vez mais funcionários se desligam das suas próprias vidas para existirem para o Círculo que mais parece uma Seita.

O jovem James Ponsoldt (diretor), de 39 anos vem procurando trilhar o caminho desde 2012 com o filme Smashed - de volta a realidade. Parece que, a característica impressa em suas obras traz temas impactantes em torno do limite humano e suas expectativas irreais. Chega a ser espantoso nessas circunstancias fictícias, mas não longe da realidade em que já vivemos, ser mutilado no seu espaço como indivíduo independente e responsável apenas por si bem como as consequências que advirem. Ter pequenas esferas-câmeras que conseguem estar espalhadas por toda a parte lembram os gigantes ciclopes que foram enfrentados por Ulisses na mitologia e que eram conhecidos como olho redondo.

Acredito que o filme nos leva a refletir sobre os limites do indivíduo e do mundo de fantasia que existe apenas virtualmente. O quanto estaríamos dispostos a abrir mão do pensar individual para ser cerceado no seu direito de ir e vir? Será que podemos retirar a maldade do mundo a partir de câmeras que destroem qualquer privacidade? Ainda questiono se seria real “saber sobre tudo” e se seria saudável. Muitos pontos positivos foram manifestados em cenas do filme como encontrar quase que imediatamente uma pessoa foragida da lei ou ainda prestar ajuda a qualquer vítima de acidente, sequestro e todos os mais crimes possíveis. Será que esse benefício seria suficiente para abrir mão do seu Eu em todo o tempo? E como ficariam as pessoas que não desejariam participar desse experimento? Proponho um paralelo com as notícias da semana as quais mostram a chegada do furacão Irma que espalhou destruição e provocou pânico pelo litoral de Cuba e EUA levando muitos a mortes. Acredito que a película pode servir para reflexão em tempos onde o olho do furacão não parece ser apenas um evento da natureza e sim um ciclone virtual sem começo, meio ou fim que pode servir para devastar a tudo e todos assim como as mais belas praias do mundo afetadas pelo Irma.

Talvez a mensagem do filme seja essa. A espécie humana está preparada para se manter viva e consciente de si? Ou será que estamos presos em uma grande roda gigante do capitalismo e tecnologia? Talvez estamos retornando infinitamente do ponto em que partimos, como em um círculo.

1Psicanalista e professora do Programa de Formação da EPP, atende em consultório particular. 

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