
artigos tecnicosHipóteses sobre o desenvolvimento emocional de adultos: uma releitura do livro Der Struwwelpeter, de Heinrich Hoffmann.1 Introdução O presente trabalho tem como objetivos: analisar o conteúdo de um livro que é referência há mais de 160 anos na Europa para educação infantil de crianças dos três aos seis anos de idade e identificar alguns impactos que o conteúdo do livro pode ter sobre o desenvolvimento emocional da criança e suas potenciais conseqüências para desenvolvimento emocional do adulto. O trabalho também discute as conseqüências para o modelo educacional convencional. A base teórica para fundamentar a análise está contida na obra de Melanie Klein. 2 Do livro e do autor Heinrich Hoffmann nasceu em 13/06/1809 e faleceu em 20/09/1894, em Frankfurt am Main, Alemanha. Não era de família abastada, mas conseguiu concluir seu curso de medicina e estabelecer-se como médico pediatra. Nas horas vagas, gostava de escrever poemas. Na véspera do Natal de 1844 procurou um livro com figuras para presentear seu filho, então com três anos de idade. Nada encontrou. Frustrado, decide ele mesmo preparar um livro ilustrado e com textos em forma de rima. Assim, nesse mesmo Natal seu filho ganha de presente o manuscrito que o pai denominou Der Struwwelpeter, um livro ilustrado, para crianças de três a seis anos. Pouco depois, um editor toma conhecimento do manuscrito e decide publicá-lo. Assim, já no ano seguinte, de 1845, são publicados e vendidos rapidamente três mil exemplares do livro cujas edições se sucederiam, até os dias de hoje, passados mais de 160 anos. Esse livro foi, pouco tempo depois, traduzido para o inglês por Mark Twain. Ganhou, também, tradução para o francês. Hoffmann, apesar de ter circulado por diversas especialidades da medicina, sempre com sucesso, decide dedicar-se ao estudo psiquiátrico de jovens quando já é medico amadurecido. Em 1859 publica um artigo que acaba tendo certo impacto, pois envolve distúrbios mentais e epilepsia. Nesse período, Hoffmann já é um homem politicamente engajado; um liberal, adepto da monarquia constitucional sob a égide prussiana. 3 Critérios para elaboração da análise Faz-se necessário estabelecer que critérios serão empregados neste trabalho, a fim de se delimitar sua extensão bem como sua profundidade. Primeiramente, seguindo um dos principais critérios técnicos de psicanálise (Freud, 1914), o da atenção suspensa ou flutuante, e pelo fato de ser um livro para crianças, optou-se por concentrar a análise nas figuras, e não nos textos. Tanto as figuras como os textos, no original em alemão e em tradução inglesa feita por Mark Twain, encontram disponíveis em sites de consulta apresentados nas referências bibliográficas. O segundo critério foi utilizar fundamentos da teoria Kleiniana, uma vez que é possível identificar nas estórias apresentadas no livro o caráter marcadamente persecutório, tema pelo qual Melanie Klein tornou-se referência enquanto autora, no universo psicanalítico. 4 Análise das estórias O livro é composto por um prefácio seguido de nove estórias. O prefácio trata de como deve ser uma criança: comportada, tomar sua sopa com o pão, não ser barulhenta, deixar-se guiar pela mão da mãe, nos passeios. Se agir assim, receberá a visita do menino Jesus que lhe trará, de presente, um lindo livro ilustrado. As demais estórias apresentam situações em que a desobediência ou a crueldade pode levar à morte da criança. 4.1 Quadro geral O ponto comum em todas as estórias é o emprego da ansiedade persecutória como meio para a educação de crianças. Em todas as estórias o ego acaba em situação de perigo, o que evidencia a natureza arcaica das ansiedades suscitadas, mais precisamente a ansiedade persecutória (Klein, 1935). A criança, nesse sentido, passa a temer, não por seus objetos bons internalizados, como sua mãe ou seu pai (seio/pênis bom, seio/pênis mau), mas sim, pela retaliação que pode sofrer em função de seus desejos sádicos orais e anais projetados para o exterior. Como será demonstrado adiante, essa diferença é crucial para o desenvolvimento do ego. Um segundo agravante é a presença de elementos que denunciam o andamento dos complexos de Édipo e de Castração, que em algumas estórias vêm reforçar o aspecto persecutório que podem assumir os objetos receptores dos desejos sádicos orais e anais da criança. 4.2 As estórias Der Struwwelpeter A estória de Frederico, o cruel. Nesta estória pode se observar tanto ansiedades persecutórias quanto de castração. O menino, após agredir um pássaro, um galo, um gato, volta-se para agredir sua babá (um substituto da mãe, por deslocamento). Avista um cão que bebe água e segue para açoitá-lo. Ao tentar impor-se ao cão e agredi-lo, tenta subjugar o pai, como já foi demonstrado por Klein, 1932 . Esse controle vem acompanhado de sadismo, característico dessa fase do desenvolvimento. Ainda sobre a influencia da fase oral, é através de uma mordida que o cão põe Frederico fora de combate, fantasia comum como aponta Klein, 1932 de que o pênis do garoto é arrancado a dentadas pelo pai castrador. A estória termina com o triunfo do cão (o pai) banqueteando-se à mesa, como se fosse o jovem Frederico, não sem antes o médico administrar medicamento muito amargo ao jovem Frederico que ainda se ressente das fortes dores da mordida. O que pode ficar evidenciado no final da estória, é que o pai ganha a batalha, e pode na fantasia arcaica da criança, ser saciado pelo seio nutridor, numa eterna simbiose da qual a criança se sente excluída . A triste estória de Pauline e os fósforos. Nesta estória, de aspecto persecutório geral, o que se teme não é um inimigo definido, mas o próprio sadismo do Id (representante da pulsão de morte). Esse sadismo é projetado para o exterior em forma de chamas, simbolizadas pelos fósforos. Esse conceito tem forte ligação com a posição esquizoparanóide (Klein, 1946), em que o ego utiliza como defesa contra seus impulsos sádicos os mecanismos de projeção e introjeção. É interessante a figura dos dois gatos representando os pais introjetados, que aparentemente não são sentidos como suficientes para impedir o processo de cisão do ego e se colocam, ao final, junto às cinzas da menina, tendo um laço negro envolto na cauda. Essa estória acaba em morte da menina em decorrência da vingança dos objetos externos contra o sadismo projetado pelo ego. A estória dos meninos negros. Três jovens riem-se ao verem passar um mouro, negro como tinta. São advertidos por São Nicolau, mas insistem nas chacotas. Nicolau os toma e, para castigá-los, também os tinge de preto em seu tinteiro gigante. O bumerangue retorna e a Lei de Talião se completa. Essa estória apresenta a mesma estrutura das demais, mas com a agravante de que o executor da vingança não é o próprio objeto vítima do sadismo, mas um outro elemento na relação. Fica evidenciado o caráter castrador que São Nicolau assume nessa estória, representando a ordem do pênis, um superego que tenta salvar os conteúdos de seu objeto bom, a saber, os filhos que estão dentro do corpo da mãe, do sadismo proveniente do ID. A estória do caçador selvagem. Um caçador toma seu rifle (com representação fálica) e seus óculos e se põe a caçar a lebre, que a tudo observa. Sob o sol forte e o peso da arma, decide descansar. Acaba cochilando, enquanto a lebre lhe toma o rifle e os óculos e passa a perseguí-lo até que, sem saída, mergulha no poço, já em sua casa. Aqui a questão do complexo de Édipo é evidente: a caça (a lebre) termina por roubar o rifle fálico do caçador e com esse rifle, encurralá-lo até fazê-lo lançar-se no poço, sob o olhar da esposa aflita e da alegria da lebre filhote. Aqui também é possível a leitura de um Édipo invertido. A estória do chupa-dedos. O aspecto castrador desta estória também é evidente: o menino costuma chupar seus dois polegares (masturbação) e não reage às admoestações da mãe. Surge, então, o alfaiate com sua enorme tesoura fálica e lhe corta fora os dois polegares. A expressão do jovem é de impotência, enquanto o sangue escorre pelos cortes. Freud comenta essa estória na sua Conferência XXIII: “Em Struwwelpeter, a famosa obra de Hoffmann, pediatra de Frankfurt, (a qual deve sua popularidade justamente à compreensão dos complexos sexuais e de outros complexos da infância), os senhores verão a castração atenuada em amputação dos polegares, como castigo pela obstinação em sugá-los” (Freud, 1917). A estória de Gaspar que não tomava sua sopa. Nessa estória, Gaspar recusa-se a tomar sua sopa e, em quatro dias definha a ponto de morrer no quinto dia. Um montinho de terra caracteriza sua cova, marcada por uma cruz, tendo, ao lado, a imensa sopeira. O aspecto central dessa estória parece ser o aspecto paranóico do menino, pois, na sua fantasia, a sopa (o leite ruim) está envenenada (Klein, 1932) pelo seu próprio sadismo, por isso é motivo de repulsa. Mais uma vez as imagos ameaçadoras derrotam o ego. A estória de Felipe que se balançava na cadeira. Pai, mãe e o jovem Filipe estão à mesa para a refeição. O jovem balança-se na cadeira (ansiedade) sob os olhares perturbados dos pais e de suas admoestações até que perde o equilíbrio, agarra-se na toalha da mesa, levando tudo para o chão. Garrafa, sopeira, pratos estão destruídos. Os alimentos espalhados pelo chão. Os pais, furiosos. A moldura da última estampa apresenta tanto o que podem ser vassouras, mas também um amarrado para surrar o jovem Filipe. A estória de Joãozinho que não olhava por onde andava. Joãozinho tinha o hábito de sempre olhar para o alto enquanto caminhava; não olhava seus passos. Tropeça num cachorro (o pai) e ambos caem no chão. Nada aprendido, Joãozinho continua a olhar para o alto, até que cai no rio, com sua mochila contendo os materiais escolares, sob o olhar espantado de três peixinhos (seriam os gatos de estória de Pauline e os fósforos?). Joãozinho é içado por dois homens transeuntes, completamente encharcado. Perde sua mochila com seus pertences escolares enquanto os três peixinhos riem-se sem parar. Essa estória parece apresentar um momento de brandura na seqüência de catástrofes retratadas nas anteriores. Aqui se pode notar uma tentativa de explorar o corpo da mãe, onde habitam o pai (cachorro), os irmãos (os peixes), etc ... O que existe de interessante aqui é como o corpo da mãe se apresenta como um local perigoso e contaminado. Essa contaminação deve-se ao próprio sadismo da criança que envenena o corpo da mãe como pode ser visto no caso do menino que não tomava sopa. Contém até, pode-se dizer, uma certa dose de humor, em que tudo termina bem, exceto pela perda dos materiais escolares, evidenciando a perda da capacidade de simbolizar da criança – pelo menos ela termina viva. A estória de Roberto que saiu voando. Na chuva e nas tempestades meninos e meninas devem ficar em casa. Mas não Roberto, que sai com seu chapéu e guarda-chuva enquanto a tormenta se intensifica e o céu escurece num tom lúgubre e ameaçador. De repente, chapéu e Roberto saem voando e ninguém sabe mais de seu paradeiro. Esta estória encerra o livro Der Struwwelpeter de modo peculiar: às crianças desobedientes cabe o desaparecimento, o sumiço eterno, a perda irreparável. O mundo como um lugar por si só perigoso é também reforçado nessa estória. É interessante ressaltar que desaparecer é pior que estar morto, pois o desaparecido simplesmente deixa de existir, enquanto que o morto ainda conserva seu luto. A não existência é um sentimento difícil de elaborar em comparação à morte – a eterna angustia de ser ou não ser. 4.3 Síntese É evidente que a interpretação das estórias tem um caráter altamente subjetivo, mesmo quando se estabelecem critérios de análise e se empregam referenciais da psicanálise. Mas existem estruturas comuns às estórias que podem, de forma geral, ser apreendidas e analisadas. Antes de tentar decodificar essas estruturas, é importante lembrar que esse livro tem sido referencial para a educação infantil de famílias de vários países europeus, há mais de 160 anos, o que, por si só já o qualifica em importância para uma abordagem psicanalítica. Primeiramente o que fica evidente é o aspecto persecutório que permeia todas as estórias. Não se trata do medo da perda do amor dos pais, mas do risco que corre a própria criança diante do mundo. A origem desse temor não deve ser buscada no mundo, que nas estórias não é a causa da dor e do sofrimento, mas na própria criança, causadora dos seus próprios males. Fica claro que o uso desse livro por parte dos pais visa a “boa educação” dos filhos e a preparação frente aos perigos do mundo que, sem dúvida, são reais. Uma criança que brinca com fósforos pode causar e ser vítima de um grave acidente. Mas o que chama a atenção no livro é a utilização da ansiedade persecutória para atingir esse objetivo educacional. 5 Base teórica de referência
Klein define dois tipos principais de ansiedade: a paranóica e a depressiva. Um aspecto importante entre as duas ansiedades e o desenvolvimento do ego, bem como do aparelho psíquico, é que essas duas posições (nome que Klein dá para um conjunto de ansiedades e defesas do ego), são a base do funcionamento mental. O ego, o superego e todos os complexos ocorrem sob as dinâmicas dessas posições. Uma perturbação em uma posição pode levar a um desenvolvimento falho de todo o aparelho psíquico, bem como dos complexos de Édipo e de Castração. Esse conceito é tão importante para Klein que uma análise não termina quando o reprimido vem à consciência, mas quando as ansiedades arcaicas – persecutórias e depressivas – são devidamente equacionadas: “ Na medida em que as ansiedades persecutória e depressiva são vivenciadas e em última instância reduzidas durante a análise, surge uma síntese maior dos aspectos do analista, juntamente com uma síntese maior dos diversos aspectos do superego... Quando esses aspectos positivos estão suficientemente estabelecidos, justifica-se pensar que o término de uma análise não é prematuro, ainda que ele possa fazer reviver até mesmo uma ansiedade aguda” (Klein, 1950). 5.2 O ego e seus mecanismos de defesa O ego desenvolve algumas defesas para lidar com essa ansiedade, e uma delas, e talvez a mais arcaica, é a cisão do ego: Outro processo de cisão dos objetos internos que ocorre dentro do ego esta relacionado à natureza da introjeção dos objetos, que ocorrem sob o domínio de desejos sádico-orais canibalescos: “Em estados de frustração e ansiedade, os desejos sádico-orais e canibalescos são reforçados, e então o bebê sente ter tomado para dentro de si o mamilo e o seio em pedaços” (Klein, 1946). Estamos tratando, portanto de um ego cindido e despedaçado em suas origens arcaicas. Um outro mecanismo utilizado é a projeção dos objetos internos juntamente com as partes do self que são percebidas como fonte de ansiedade (Klein usa o verbo excisão/split). O indivíduo também projeta, no auge de sua fase sádica oral e anal, ataques contra o corpo da mãe que é percebido como objeto de perigo (seio frustrador, seio mau), o que tende a reforçar seu aspecto persecutório. Como uma parte do self foi excindida juntamente com os ataques e projeções do ego, o ego se identifica com seu objeto de ataque (o seio da mãe) – na verdade seu próprio self. Klein dá a esse processo o nome de identificação projetiva: “Muito ódio contra partes do self é agora dirigido contra a mãe. Isso leva a uma forma particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação de objeto agressiva. Sugiro o termo “identificação projetiva” para esses processos.” (Klein, 1946). 5.3 Culpa e Superego Em “O desenvolvimento inicial da consciência na criança” (1933) Klein esboça que o superego corresponde aos pais introjetados: “O superego da criança não corresponde aos seus pais verdadeiros, sendo criados a partir das imagens ou imagos deles que a criança jogou para dentro de si mesma”. Um pouco mais adiante ela acrescenta: Em síntese, o protótipo do superego são o seio e o pênis maus e perseguidores. Klein manterá essa posição até 1958. “ O ego, sustentado pelo objeto bom internalizado e fortificado pela identificação com ele, projeta uma porção da pulsão de morte dentro daquela parte de si mesmo que ele havia excindido – uma parte que, dessa forma, passa a estar em oposição ao resto do ego e forma a base do superego. Concomitantemente a essas deflexões, partes dos objetos bom e mau são excindidas do ego para dentro do superego.” (Klein, 1958). Mais adiante acrescenta: “Esses objetos extremamente perigosos fazem surgir conflito e ansiedade dentro do ego no início da infância; mas, sob a pressão de ansiedade aguda, eles e outras figuras aterrorizantes são excindidas de uma diferente daquela que o superego é formado, sendo relegados às camadas mais profundas do inconsciente.” (Klein, 1958) Existe para Klein uma relação direta entre o superego e essas figuras persecutórias, uma vez que o sadismo dessas figuras dirigidas ao objeto bom são alvo de sua repulsa. O ego, portanto, precisa sanar o problema da ansiedade persecutória e das reprimendas de seu superego. A presente mudança não foi posteriormente desenvolvida pela autora e nem seus impactos dentro de sua teoria precedente foi por ela analisado. Essa diferença para o presente trabalho não tem um impacto profundo, uma vez que o objeto de estudo desse trabalho esta focado nas ansiedades persecutórias, quer se encontrem dentro ou fora do superego. Um dos conceitos centrais da obra kleiniana utilizadas no presente trabalho é a noção de culpa. Para Klein, a culpa esta vinculada à ansiedade depressiva e não à persecutória:“Considero a essência da culpa o sentimento de que o dano feito ao objeto é causado pelos impulsos agressivos do próprio indivíduo... Parece provável que a ansiedade depressiva, a culpa e a tendência reparatória só sejam vivenciadas quando os sentimentos de amor pelo objeto predominam sobre os impulsos destrutivos.” (Klein, 1948). Mais adiante ela resume sua opinião: “A culpa está indissoluvelmente vinculada à ansiedade (mais exatamente, a uma forma específica de ansiedade: a depressiva): conduz à tendência reparatória e surge durante os primeiros meses de vida, em conexão com os estágios mais arcaicos do superego.” (Klein, 1948). Esse conceito é essencial, pois a culpa não nasce da ansiedade persecutória, e sim da depressiva. Ansiedade persecutória não gera culpa, gera mais ansiedade persecutória pelo mecanismo de projeção e introjeção. Mais adiante esse conceito ainda será explorado. 5.4 Complexo de Édipo 5.5 Desenvolvimento do ego no indivíduo “ Minha hipótese, portanto, é que a capacidade de amar promove tanto as tendências integradoras quanto o sucesso da cisão fundamental entre o objeto amado e o odiado. Isso soa paradoxal. Mas, como já disse, uma vez que a integração baseia-se em um objeto bom firmemente enraizado que forma o núcleo do ego, um certo montante de cisão é essencial para a integração, por preservar o objeto bom e, mais tarde, capacitar o ego a sintetizar os dois aspectos do objeto.” (Klein, 1957). Esse processo é reforçado pela sublimação dos desejos sádicos orais e anais (representantes da pulsão de morte) pelos desejos libidinais (representante da pulsão de vida). Um bom desenvolvimento do ego indica que este ego foi capaz de se sintetizar e de criar condições para estabelecer um processo de simbolização do mundo que seja adequada e sem falhas. Esse processo entre cisão e síntese é constante, pois são partes do funcionamento mental, e não de um período determinado da vida, como aponta Klein em 1948: “Essas observações tornam-se compreensíveis se lembrarmos que a percepção da criança pequena acerca da realidade externa e dos objetos externos é continuamente influenciada e colorida por suas fantasias, e que isso em certa medida continua ocorrendo pela vida afora.”. O aspecto fundamental, aqui, é a noção de que a ansiedade paranóica atua na base da cisão do ego e a ansiedade depressiva atua na base da síntese do ego. O desenvolvimento do indivíduo se dá no sentido da síntese do seu ego, e não de sua cisão. 6 Hipóteses sobre o desenvolvimento emocional Um dos pontos centrais da análise da metodologia do livro objeto de estudo, é o caráter persecutório das suas estórias. É através de estórias de estrutura persecutória que se pretende realizar a educação de crianças por volta dos três anos de idade. O ponto central em que se baseia essa educação é, portanto, o medo. Vários podem ser os efeitos de uma educação baseada em sentimentos persecutórios nessa idade. Enumeramos os principais abaixo: a) A ansiedade persecutória é responsável pela cisão do ego. A criança necessita de um ambiente facilitador que a ajude a realizar continuamente seu processo de síntese e elaboração de novos símbolos – “O amor, os desejos (tanto agressivos quanto libidinais) e ansiedades são transferidos do primeiro e único objeto, a mãe, para outros objetos, e novos interesses se desenvolvem e tornam-se substitutos da relação com o seio materno.” (Klein, 1930) b) Um ego cindido é um ego incapaz de pensar coerentemente. Esse é um dos grandes saltos da teoria kleiniana sobre o desenvolvimento do ego. Como uma das defesas na posição esquizoparanóide é a negação, uma das partes do ego, bem como suas relações simbólicas. Isso acarreta uma grande dificuldade na capacidade da criança de simbolizar e, em casos graves, pode ser responsável pela demência precoce. Em casos leves, pode ser responsável por dificuldades intelectuais, como a correta alfabetização. c) Dependendo de como o objeto bom foi internalizado e é mantido, as ansiedades persecutórias podem ser responsáveis pelo desenvolvimento de um quadro de paranóia, em que a projeção dessas ansiedades é excessiva, provocando um temor exagerado em relação a objetos externos, que aliado ao complexo de Édipo, pode fazer o ego temer exageradamente o pênis do pai, o que pode levar o menino a um Édipo invertido (Klein, 1932). d) Um quadro que combine frustrações externas e um excesso de ansiedade persecutória pode fazer com que o ego desista de se relacionar com o mundo externo, o que levaria a um quadro de psicose. Isso claro, se o objeto bom também não for suficientemente bem internalizado para servir de âncora para o ego. e) Quer aceitemos a noção de um ego formado por figuras aterrorizantes, quer estas estejam separadas do superego, a ansiedade persecutória pode levar a um quadro em que o superego seja percebido como extremamente cruel, o que pode acarretar um ego preso às exigências desse superego tirânico. f) No caso de aceitarmos que essas figuras persecutórias foram excindidas para o fundo do ID, não faz sentido catexizar essas figuras durante o processo de continua integração do ego durante o processo que vai até o período de latência. g) Todos os efeitos do desenvolvimento do complexo de Édipo e Castração podem tomar proporções muito exageradas, fazendo-se perceber de uma maneira aterrorizante. As relações com o pênis do pai castrador, ou com o corpo danificado e envenenado da mãe podem prejudicar uma solução favorável para esses conflitos, como já foi visto no caso da paranóia. Um contraponto em relação a essa estratégia seria lançar mão de uma literatura que possibilite à criança fantasiar e elaborar suas ansiedades arcaicas, tornando-se um meio facilitador para sua síntese. Um exemplo que pode ser utilizado nesse caso encontra-se na obra de Monteiro Lobato. No imaginário de Lobato, existem os fantasmas, a Cuca, o Saci, os seres aterrorizantes da floresta. Mas eles existem lado a lado com as relações familiares, com objetos imaginários bons, como o Visconde de Sabugosa, e, em um ponto alto de sua obra, da figura de Emilia, a boneca de pano. Para uma harmoniosa integração do ego, a parte boa do objeto precisa mitigar a parte má e o objeto passar a ser percebido como uno, possuidor de ambas as qualidades, mas nem por isso com a necessidade de ser temido. Essa figura na literatura de Lobato é Emilia, adorada por todos, sapeca e fazedora de coisas boas em algumas horas e ruins em outras. Essa revolução em que um personagem pode ser bom e mau ao mesmo tempo e ainda assim ser querido e amado, torna a literatura infantil de Monteiro Lobato um caso peculiar sob a ótica de uma leitura psicanalítica. Essa revolução possibilita à criança elaborar de uma maneira satisfatória figuras que ainda estejam cindidas em seu ego entre o bem e o mau. Mesmo nos contos conhecidos dos Irmãos Grimm, o mau sempre é derrotado, eliminado, semelhante aos mecanismos utilizados na posição esquizoparanóide. Nessas obras também existe uma nítida diferença entre os personagens bons e maus, nunca ocorrendo uma síntese dessas qualidades nesses personagens. O mesmo não ocorre nos contos de Lobato, pois até hoje a Cuca está viva em seus livros, como uma representação sublimada das arcaicas figuras aterrorizantes, sendo que a mesma nunca é morta, apenas subjugada. É como se tivesse, e tem, sua função na perfeita ordem que rege o Sitio do Pica Pau Amarelo. 7 Comentários Finais As estórias de Hoffmann juntam-se a tantas outras estórias do nosso folclore como a do bicho-papão, do homem do saco, do quarto escuro, de cortar fora o pipi, de Deus que castiga etc., em que a rigidez e o sistema persecutório empregam o medo sempre presente como fator de controle externo e interno. Esse medo desenvolve-se através do sistema de projeção e introjeção, em que o bumerangue sempre volta para quem praticou o mal, cujo resultado se resolve à la Talião: olho por olho, dente por dente. Do medo nasce o ódio, essa é uma das importantes lições de Klein. Esse desenvolvimento emocional pode gerar um adulto que, diante da liberdade de escolha e da tomada de decisões, responda-lhe com ansiedade. Seu ego pode tornar-se extremamente cindido, seu superego pode tornar-se assombrosamente grande e comprometer o desenvolvimento do ego (como abordado na obra de Jane Loevinger e Ruth Wessler, 1970) produzindo um indivíduo emocionalmente semi-alfabetizado ou fragilizado. Crianças com graves problemas na solução de seus conflitos edipianos e de castração podem tornar-se adultos vaidosos (mulheres – medo que sua mãe possa ferir sua beleza, assim como ela feriu a de sua mãe) ou narcisistas (homens), com pouca alegria de viver, com pouca vivacidade, com sentimento de impotência diante dos desafios mais simples da vida cotidiana. Esse seria um quadro otimista, se uma educação persecutória, ao não ser um ambiente facilitador para o desenvolvimento infantil, não contribuir para o desenvolvimento de graves doenças, como esquizofrenia, paranóia ou psicose. Ora, adultos com esse perfil tendem a manter e reproduzir padrões emocionais, o que pode explicar o fato incontestável de que esse livro Der Struwwelpeter ainda seja sucesso de vendas, mesmo após mais de 160 anos de sua publicação: trata-se de um livro com estórias arquetípicas, cujos resultados permeiam o mundo ocidental, independentemente de sua leitura. O consumo de literatura infantil é cada vez maior, e os pais têm responsabilidade sobre o conteúdo dos livros que seus filhos venham a consumir. O presente trabalho procurou demonstrar que ainda nos dias de hoje persiste um padrão de educação que usa a posição esquizoparanóide como base e estratégia para seus objetivos. Também apontou caminhos de como podem ser o conteúdo de livros que ajudem a criança a desenvolver suas potencialidades, ajudando seu ego no seu processo de contínua síntese do mundo. Em outras palavras, ajudando que as forças representadas pela pulsão de vida consigam sublimar os representantes da pulsão de morte. A maior contribuição que a teoria kleiniana pode trazer nesse caso é que o ódio é filho do medo. Como essa análise tem apenas a pretensão de ser de natureza exploratória encerra-se o artigo com algumas indagações que poderão ser posteriormente investigadas: • Essas estórias podem preconizar um estado mental do autor Heinrich Hoffmann que pode ser explicado posteriormente, quando demonstra clara inclinação pela psiquiatria juvenil e pelo engajamento político numa estrutura monárquica constitucionalista prussiana? 8 Referências bibliográficas FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Volume XII (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1996. _________ Conferência XXIII. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Volume XVI (1916-1917). Rio de Janeiro: Imago, 1996. KLEIN, M. A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. Obras Completas de Melanie Klein: Volume I Amor culpa e reparação e outros trabalhos (1930). Rio de Janeiro: Imago, 1996. _______ A psicanálise de crianças. Obras Completas de Melanie Klein: Volume II A psicanálise de crianças (1932). Rio de Janeiro: Imago, 1997. ______ O desenvolvimento inicial da consciência na criança. Obras Completas de Melanie Klein: Volume I Amor culpa e reparação e outros trabalhos (1933). Rio de Janeiro: Imago, 1996. ______ Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos. Obras Completas de Melanie Klein: Volume I Amor culpa e reparação e outros trabalhos (1935). Rio de Janeiro: Imago, 1996. ______ O luto e suas relações com os estados maníacos-depressivos. Obras Completas de Melanie Klein: Volume I Amor culpa e reparação e outros trabalhos (1940). Rio de Janeiro: Imago, 1996. ______ O complexo de Édipo à luz das ansiedades arcaicas. Obras Completas de Melanie Klein: Volume I Amor culpa e reparação e outros trabalhos (1945). 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Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1958). Rio de Janeiro: Imago, 1991. LOEVINGER, J. & WESSLER, R. Measuring Ego Development. San Francisco: Jossey-Bass Inc., 1970. http://www.fln.vcu.edu/struwwel/struwwel.html acessado em 25/09/2005 Autores Elson Alexandre Esclapes (Núcleo de Psicanálise Aplicada do Instituto Organon)
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