
artigos inspiracaoEncerrando 2008Por Denise Deschamps E vamos nós, mais uma vez, para as já esperadas reflexões de fim de ano, quase um vício, uma obsessão, um algo que fazemos como um remédio ou apenas como um rito de esperança. Pensar nesse marcador simbólico que na verdade nos coloca de frente ao que estamos fazendo com nossas vidas, até onde aquilo que pensamos ser nosso desejo, o que nos move no sagrado da nossa essência ou demoníaco de nossas pulsões, terá sido o que alimentou nossas conquistas e derrotas no ano que se encerra. A descoberta freudiana mais uma vez nos coloca de frente a uma verdade quase intolerável: pouco ou nada sabemos daquilo nos move à ação. Isso assusta e surpreende por um lado, por outro, nos traz a emoção da aventura que é viver. Para alguns, nos dias de hoje, manifesta em pânico, ansiedade e paralisia. Amamos, odiamos, investimos, desinvestimos, vivemos lutos e gratificações...Viver, que estranha tarefa para algo que nos move até as estranhas terras do Nirvana. Morrer, um pouco a cada dia, em doses pequenas e diárias, impulsos que nos remetem, ou deveriam remeter, à importância daquilo que inscrevemos ao nosso redor: ao fazer minha história, escrevo palavras na grande História da humanidade, algumas vezes apenas letras desconexas. O que me faz humana? O que fala dessa possibilidade do existir? Quem sou, para onde vou? De onde vim? Perguntas que em algum momento nos atravessam, ou nos atravessam todos os dias, mesmo quando não ditas ou se são apenas sussuradas. Atravessamos o simbólico caminho do existir, abraçados com uma realidade que muitas vezes empobrece tudo que acalentamos como o mais significante do nosso ser no mundo. Divididos em países, modos de produção, classes sociais, credos, cor de pele, orientação sexual, faixa etária, estado civil, bairros, ideologias, sanidade ou doença, loucura ou normalidade, continentes, gostos culturais e tantas e tantas outras divisões que vamos inventando, separando o inseparável, desagregando o que não pode ser fracionado. Eu vivo, tu vives, ele vive...nós vivemos, dentro de uma cultura, de uma civilização, de um mesmo planeta redondo, mais água do que terra, pendurado em uma galáxia que talvez seja apenas mais um divisor que inventamos. Agredimos por oposição, às vezes por puro gosto(talvez um gozo sádico não criativo), e ao fazer isso, movemos uma onda que volta até nós, como um espelho macabro que só fala de esterilização do bio em nós, do Eros que nos alimenta, dos tais ideais fraternos que um dia Freud chegou a sonhar que construiria um mundo em paz ou em seu contrário seria o "Porquê da guerra". Que o tal gozo perverso do qual nos acusam muitos teóricos da contemporaneidade, possa se tornar menos letal para o próximo ano, quem sabe inaugurando um novo modo de estar em vínculos com o mundo que nos cerca. Esperança, palavra que pude ver debatida esse ano em um belíssimo encontro de uma sociedade de psicanálise aqui no Rio de Janeiro. Não pensei antes, na possibilidade de me emocionar tanto, algum dia, ao assistir a relatos e composições teóricas. Grata e maravilhosa surpresa. Fez o ano ficar um tanto mais bonito! Freud nos disse sobre nossas principais tarefas, prazer segundo ele: amor e trabalho. Que realizemos nosso amor com o devido trabalho que isso exige ao nosso afeto, e trabalhemos sempre, em prol do nosso amor. Amor, esse sentimento que começa na própria casa do nosso ser, desse ego até onde podemos perceber sua consistência, desejemos que ele negocie bem, seja exigente naquilo que falar de construção, respeito, vínculo, afeto, troca. Trabalho, que deve estar sempre a serviço da vida e do coletivo. Que nada seja desperdiçado ou tratado com desdém quando falar do Outro, desse ser ou seres que fazem com que a vida seja algo a ser construída e investida, seja ele nosso irmão, estranho ou opositor. A esperança hoje é irmã gêmea da nossa capacidade de respeitar o semelhante em toda sua potencialidade e afeto e que sejamos sempre tratados de igual maneira, mais uma vez me remeto a Freud em seu belo texto, que eu particularmente aprecio muito "Psicologia das Massas e Análise do Ego", aos tais ideais coletivos que um dia, quem sabe, com respeito e esperança, possam nos fazer odiar menos e amar mais. Se como ele bem apontou em "O Mal estar na Civilização" para o fato de que é impossível amar o próximo de uma maneira igual, fazemos escolhas por afinidades, que possamos respeitar sua existência, isso sem dúvida falará de vida em nossa vida, dignidade.Que os limites necessários à civilização falem de vida e criatividade, não de morte ou paralisia dos ganhos secundários. Esse ano que se encerra nos chamou para muitas reflexões, muitos fatos nos chocaram tremendamente, alguns nos fazendo duvidar de que haja mesmo algo de puro nessa construção humana contemporânea. Mas parece que a palavra esperança vem sendo sussurrada, falada "...que anda nas cabeças? Que andam acendendo Velas nos becos?... Está na natureza...". Está em nossa natureza, destruir e construir, gestar e matar...balé da vida. Meu convite pessoal-profissional, profissional-pessoal, convite de cidadania é para que dancemos ao som de uma bela melodia, em uma noite maravilhosa e que essa seja sempre, irrevogavelmente, acompanhada por um dia esplendoroso. Que a vida valha a pena e que a alma não seja pequena. Um laborioso e amoroso 2009 para todos nós! |
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