
Diversao e arteDVD: O exorcismo de Emily RosePor Eduardo Honorato
Há, então, uma regressão a um dos estágios mais primitivos, o oral. A Psicologia de base analítica explica isso dessa maneira. O fator desencadeante foi a mudança de vida. De uma vidinha pacata e religiosa, para um mundo de oportunidades, de jovens, de "pecado". Reparem que ela se envolve depois com um rapaz e não há indicações se estavam ou não tendo relações sexuais. No senso comum, ouve-se muito "fulana se separou e por isso ficou deprimida". Mas, há um porém; nem todo mundo que se separa fica deprimido. Vai depender da estrutura de personalidade desse sujeito. O leigo vê o fator desencadeante como causa e nós buscamos as causas desde o seu desenvolvimento. Na psicose há uma falência do narcisismo primário. Existe, nesses pacientes, uma confusão alucinatória (as vozes e os rostos deformados que Emily via), que é caracterizada como perda de contato com a realidade. É por isso que psicóticos, quando vão a julgamento por crimes são considerados inimputáveis, pois não tem consciência de que seus atos são criminosos ou errados, quando cometidos em situação de surto. Por exemplo: se Emily tivesse esfaqueado o namorado na cena em que contorce o corpo na Igreja, poderiam alegar insanidade, pois ela estava em um surto e poderia ter acreditado que ele era um demônio ameaçando sua vida. A partir dessas fantasias e desejos (e alucinações), o psicótico (re)constrói toda uma realidade. Há o que se chama de vivência do sintoma e não "se sente". Isso em Psicopatologia se chama egossintonia, pois ele está convicto do seu sintoma (de que é real) e de certa forma não há incômodo. Acredito que isso não foi bem explorado no caso do filme. Chegou-se até a cogitar a idéia de egossintonia ou distonia, mas relativo a uma possível dissociação de personalidade (o que descartaria totalmente o psicodiagnóstico de psicose). Algo presente na psicose e nos relatos sobre a vida de Emily é a ausência de consciência de seu estado mórbido, pois de certa forma ela desconhecia que estava doente porque "acreditava" que estava possuída. Sabemos que naquela época não havia tanto conhecimento sobre doenças mentais, mas pensemos da seguinte maneira: você é mãe e seu filho está doente. Você o leva ao médico e não consegue muito êxito com o tratamento. Seu filho, de oito anos de idade, diz para você que não quer mais se tratar. O que você faz? Aceita a vontade dele? Situações bem diferentes, mas de certa forma análogas, se pensarmos que padre em inglês é "father" e que, no caso de Emily, tinha uma conotação bastante paterna, uma vez que o pai dela era bastante autoritário e aparentemente bastante distante das filhas. Uma filha então, diz para o pai que não quer mais se tratar. Existem suspeitas de que possa ser uma psicose e o profissional psi deveria explicar aos familiares as implicações de um diagnóstico desses. Sabendo, em termos mais populares que na psicose há uma regressão a estágios infantis arcaicos, você ainda assim aceitaria a vontade desse seu filho? Acho que não. O padre como figura de poder religioso deveria ter insistido para que Emily procurasse outros médicos. Sei que ele até que tentou, mas, em minha opinião, tentou pouco, por isso acabou sendo condenado. Quem foi mais omisso? A família ou o padre? Quem tinha maior influência sobre Emily? O pai era ausente, autoritário, mas de certa forma submisso à figura religiosa (reveja o comportamento do pai diante do padre, logo nas primeiras cenas, quando ela já está morta). Se a família tivesse reforçado a idéia do tratamento médico e o padre fosse contra, a quem Emily seguiria? E se fosse o contrário, qual indicação ela seguiria? O namorado também foi “omisso”? Eram recém-namorados e ele não tinha nenhuma obrigação moral com ela ainda, porém, não interferiu muito nem desviou o caminho dos tratamentos. Teria também culpa? Ficha técnica Título Original: The Exorcism of Emily Rose Emily Rose (Jennifer Carpenter) é uma jovem que deixou sua casa em uma região rural para cursar a faculdade. Um dia, sozinha em seu quarto no alojamento, ela tem uma alucinação assustadora, perdendo a consciência logo em seguida. Como seus surtos ficam cada vez mais freqüentes, Emily, que é católica praticante, aceita ser submetida a uma sessão de exorcismo. Porém Emily morre durante o exorcismo, o que faz com que o padre seja acusado de assassinato. Referências BALLONE, Geraldo. Alucinações e os Delírios na Psicopatologia, 2003. Disponível em http://www.cerebromente.org.br/n17/doencas/alucinacoes.html Acesso em 10 Jun 2006. Esquizofrenia e Transtornos Psicóticos - DSM.IV. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/dsm/psicot.html> Acesso em 12 Nov 2005. Esquizofrenia. Disponível em http://www.psicosite.com.br/tra/psi/esquizofrenia.htm Acesso em 05 Fev 2006. Diário Ateísta: O Exorcismo de Emily Rose. Disponível em < http://www.ateismo.net/diario/2005/11/o-exorcismo-de-emily-rose.php> Acesso em 10 Jul 2006. Freud, Sigmund. A perda da realidade na neurose e na psicose. Rio de Janeiro: Imago, 1996..
DVD: Mistérios da CarnePor Ale Esclapes
É justamente nessa forma de lidar com a experiência que podemos seguir um pouco mais de perto o caminho da neurose e da perversão, e esses dois aspectos ficam muito bem marcados nesses personagens. Se Brian sofre de lapsos de memória, sonhos de abdução, uma aparente assexualidade, Neil por sua vez exerce a sua sexualidade livre, mantém as lembranças e não desenvolveu qualquer sintoma neurótico ligado as mesmas experiências. Cada um seguiu um caminho possível a sexualidade humana: a neurose ou a perversão. Enquanto Brian lembrava em atos (seus sintomas) suas experiências, a letargia com que os atos ocorreram, o estar anestesiado diante da sexualidade do adulto, buscando colocar toda essas experiências sob o regime do simbólico, Neil em sua repetição buscava os limites que foram ultrapassados em sua experiência com o treinador. É interessante como o neurótico busca colocar sob domínio do gesto uma sexualidade, uma sensualidade para ele perdida, violentada ou limitada, conquanto o perverso busca o limite que outrora não fora encontrado. O filme é belíssimo. O diretor consegue conduzir o tema sem cair no mau gosto de cenas desnecessárias. Nem por isso o filme não é traz um que de realidade dura, sem sensacionalismos, apenas a vida como ela é. O último diálogo entre os personagens é de uma intensidade e de uma verdade crua, que ao mesmo tempo que nos trás um alívio, nos trás uma profunda desesperança sobre a vida desses meninos. |
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