artigos tecnicos

A produção do sujeito no sistema capitalista - A hiperrealização da ordem técnica, o sistema capitalista e a cultura.

Por Ale Esclapes

3.1 O SISTEMA CAPITALISTA E A ORDEM T ÉCNICA


Uma vez estabelecido o conceito de ordem técnica no 2.o capítulo, pode-se analisar essa relação entre homem e objeto técnico no que tange à sua evolução.

Principalmente a partir da revolução do ‘chips’, a diferença entre o homem e o objeto técnico adquiriu uma distância que o pôs em um regime ‘trans’. Todo o corpo que fora revestido de tecnologia está intocável a nível mental pelo homem.

Ao mesmo tempo que perde sua consciência corporal para a tecnologia, esta em um paradoxo, utiliza-a para desvendar-se e individualizar-se. É na virtualidade e virulescência de um corpo que o homem se identifica e se perde. Esquizofrenia moderna.

O homem, senhor dos objetos, não percebe que lhe é limitada sua interação para com o mundo. Pelo próprio objeto. Quanto mais evolui, mais difícil ao homem compreender sua complexidade. Acaba interagindo pelos poros que lhes são permitidos. Aperta a tecla que lhe é permitida. Exerce uma função pré-programada. O homem senhor dos objetos na verdade é um homem pré- programado. Quem afinal é o senhor? Certamente os objetos.

Num mundo de tecnologia em estado de liquidez, num mundo pós ‘High-Tech’, os homens tornam-se terminais digitais; são chamados a interagir no consumo de si em uma operação pré-programada. E a tecnologia é chamada a estar em tudo e a todos os instantes.

E não só em função de uma necessidade de identificação. Tecnologia em uma sociedade de consumo. É chamada a ser consumida. Precisa ser consumida. Não se pode em uma sociedade pós-moderna pensar apenas em objetos tecnológicos. Vive-se num mundo tecnológico.

Necessidade capitalista da estrutura tecnológica. Necessidade capitalista de alargamento de fronteiras de consumo. Fronteiras do desejo. Desejo, tecnologia e individualização - cruzamento da esquizofrenia moderna como mola propulsora do capitalismo. O capitalismo cresce na proporção que o homem perde a consciência de si mesmo.

Não é a alienação marxista dos meios da produção. É a relação do homem com o objeto fruto desse trabalho. No primeiro, a classe proletária perde consciência de si. No segundo toda a sociedade se iguala e perde consciência de si, numa totalidade. Na análise tecnológica o que existe são séries e modelos, não burgueses e proletários.

O modelo basicamente é produzido nas esferas superiores da sociedade que servem como laboratório. Os modelos tendem a uma complitude (não complexidade) superiores às séries que emanam para o resto da sociedade. Democracia das séries. Com níveis diferentes de qualidade todos têm direito aquilo que já fora modelo. Porém a série não pode ser encarada como dissociada do modelo. A série tem de reproduzir na medida do possível a mesma marca psicológica de seu modelo. Cada série tem de ser uma cópia psicológica de seu modelo de origem.

E as séries têm de ser consumidas. Seu processo tem de ser maximizado. Tem de ser acessível a todas as esferas sociais. Todos tem de estar interligados a rede das séries. O capitalismo se mantém e cresce na medida que transforma pessoas em consumidoras potenciais de suas séries. Ser consumidor é ser um terminal de uma rede de s éries.



3.1.2 A LIQUIDEZ COMO ESTADO CAPITALISTA


O tempo é uma estrutura importante. A temporalidade para o burguês é uma medida de identificação. Mais precisamente de localização. Sentido temporal de existência. Em uma letargia psíquica é o tempo que vem recortar o corpo, o mundo e o futuro do burguês. Paradoxo do sentido infinitesimal desse momento de identificação. Êxtase que se perde na irredutibilidade temporal. Somente as aparências são atemporais.

Não existe futuro naquilo que não teve passado. O burguês preso a uma estrutura presente é um ser que não possui futuro que não o do próximo instante. O futuro é o instante. Necessidade de liquidez burguesa. O tempo burguês é um tempo líquido, é uma medida de liquidez. Não importa como vive mas com que liquidez. Liquidez do homem, liquidez dos mercados, liquidez do mundo.

É no êxtase da atemporalidade da liquidez do gozo e no paradoxo do tempo que se pode afirmar uma democracia. Democracia do tempo. Desde o operário e seu cartão ao burgo, teleguiado pelo seu próprio patrimônio. Ninguém escapa a essa intervenção moderna. Socializar-se é temporizar seu corpo. Feliz aquele cuja medida de tempo é a própria natureza.

O êxtase produzido pelo objeto tecnológico também obedece a essa relação atemporal. Mas por outras características (ver capítulo 2). Dois são portanto os fatores que contribuem para a liquidez dos objetos: esquizofrenia burguesa e sentido de atemporalidade. Maximização da estrutura funcional do objeto. Êxtase psicológico, necessidade de posse de si e liquidez.

3.2 A CIRCULAÇÃO DO PRODUTO CULTURAL


“ Serão amigos da ‘verdade’ esses filósofos do amanhã? possivelmente, pois todos os filósofos foram amigos das suas verdades. Mas, não serão certamente, pensadores dogmáticos. Deve-se renunciar ao mau gosto de querer estar de acordo com grande número de pessoas. O que é bom para mim, não é bom para o paladar do vizinho. E como poderia haver um ‘bem comum’? Esta frase encerra uma contradição. O que pode ser desfrutado em comum é sempre de baixa definição, de pouco valor. Enfim, as grandes coisas são reservadas aos grandes espíritos, os abismos para os espíritos profundos; as delicadezas e os calafrios reservados aos refinados, numa palavra: a raridade para os raros.” [NIETZSCHE, F., 36, 56]

Se a cultura fosse passível de ser vendida enlatada em supermercado certamente o seria. Cultura é produto a ser consumido como qualquer outro. Como produto, também possui um sistema de produção e circulação. O que se pretende aqui não é analisar onde exatamente se dá esse processo (qual sua materialidade), mas sim a dinâmica dessa estrutura em relação a cultura, bem como a influência da “tecnologia” nesse processo.

Como produto tem de atender as exigências e gostos de seus consumidores. Tem portanto de ser uma produto facilmente “digerível” pelo corpo social. Nesse círculo vicioso o produto cultural tende a uma baixa constante na sua complexidade e seu conteúdo. Também não escapa ao sistema de identificação.

Cabe ao produto cultural levar um sentido de identificação ao corpo social, assim como a própria cultura. Não dizer-lhe quem o é, mas através de um parâmetro, através de um dispositivo que lhe dê orientação no tempo e no espaço. O produto cultural ou cultura (no sentido que o produto cultural é o meio pelo qual a cultura é absorvida) é o depósito dos sentidos residuais da sociedade como um todo.

Todo produto possui um centro produtor, que por sua vez dentro do sistema capitalista visa uma única coisa: lucro. O que interessa, entretanto, é a qualidade ou complexidade desse produto. Necessariamente tende a ser diminuta. Por conseguinte esses centros produtores tendem a ser de qualidade também diminuta. O que se pretende demonstrar aqui é que não existe uma alta cultura da qual se emana o produto cultural. Este processo de produção, essa alta cultura tende a ser tão idiotizada quanto o produto a ser consumido. E essa diferença (alta cultura / cultura de massa) tende a aniquilar-se dentro do próprio sistema, por exigências do próprio mercado. O que existe são capitalistas da cultura e não elite conhecedora e detentora de todo saber de onde se emana para a sociedade. Não existe saber a ser consumido.

A cultura passa a desintegrar-se dentro do próprio sistema. Implosão da cultura no seio da sociedade. A própria estrutura do sistema cuida da anulação do próprio produto. Suicídio social.
Na soleira do aniquilamento da própria cultura tem-se o aniquilamento do próprio sujeito. O sujeito se aniquila pela falta de referente cultural e histórico, pela incapacidade de interagir na realidade concreta. A única saída que lhe resta é a temporalidade de seu gozo - que por sua vez acelera os demais processos. Na necessidade de liquidez do sistema o homem moderno implode o próprio sujeito.

Eis a exigência e desafio do próprio sujeito e do próprio sistema - identificação. Se no plano privado foi-lhe retirado uma identificação de si pela tecnologia no social, ficou desprovido de identificação pela falta de referência cultural. A cultura se tornou um local residual das próprias estruturas do sistema, não mais do indivíduo - a cultura é um resíduo do meio ou o próprio meio. O indivíduo cobra uma identificação, sem a qual o próprio sistema quebra, rompe. Como pensar em liberalismo e individualismo sem sujeito? O sujeito é chamado a identificar-se. Nem que seja como simulacro. E é como simulacro que é possível pensar em sua existência.

O sujeito passa a ser o resíduo de experiências lingüisticas que visam sua existência. Nenhum modelo teórico é mais eficaz que o dialético para manter viva a idéia de sujeito. O sujeito por definição é obrigado a existir e lhe é emprestado um “status” de existência permanente. Analisando um pouco mais a fundo o próprio projeto do social, este tem entre outras funções manter viva a existência do sujeito como constituinte. Seja como proletário, homossexual, louco ou alienado, o sujeito é constantemente chamado a falar. O social enquadra, dá uma existência e um horizonte histórico para o sujeito. O sujeito é chamado a enquadrar-se num plano perspectivo. A função do social é dar ao sujeito uma dimensão e uma perspectiva.

Na soleira da dialética e do social, o sujeito cobra uma identificação. E qualquer identificação que lhe seja dada é consumida. Não é questionada - e ao contrário que se pensa, hiperconsumida. Num ritmo maior que o suportável pela medicina, que inicialmente teve um caráter interventor no corpo social, a sociedade a consome; e cobra - queremos mais - “Elas sabem que não se liberta de nada e que só se abole um sistema obrigando-o ao hiperlógico, impelindo-o a um uso excessivo que equivale a um amortecimento brutal” [BAUDRILLARD, J., 17, 40]. O sujeito é liquido. Seu mundo é liquido. Todo processo de identificação é rapidamente consumido e esgotado, justamente por tratar-se de um sistema esquizofrênico.

Como o que lhe sobra de cultura é o próprio meio, todo o sistema é chamado ao esgotamento por um processo de hiper-realização do próprio sujeito - fruto de sua necessidade de liquidez. Todo modelo é hiper-realizado. É onde o social vira uma massa de implosão e não de explosão. Tudo nela é penetrado e implodido. Nada é desperdiçado. Nenhum parâmetro. E todo esforço é voltado a forçar uma identificação do sujeito. Necessidade prévia do sistema. E alguém ou alguma coisa deve ser consumida juntamente com os objetos. Hiper-realização do próprio sistema tecnológico. Força-se artificialmente uma identificação do homem com os objetos (mais precisamente do que está atrás dele) - é a propaganda moderna. Esta não veicula um sonho prévio, mas antes tem a função social de servir de espelho para o sujeito. Não que esta a venha refletir de maneira real, mas dar-lhe um reflexo. A propaganda mostra o que o sujeito deseja ver. Mostra o simulacro do próprio sujeito.

3.3 A REAÇÃO DA MASSA À TECNOLOGIA


Não se pode pensar apenas na reação da massa em relação à tecnologia. É preciso analisar sua reação em relação a todos os dispositivos que foram expostos em função da manutenção de um sistema mais geral, o qual porém não deve ser confundido com o ‘sistema’ muito utilizado por diversas correntes de pensamento, mas como resíduo das transformações ocorridas na organização da sociedade sob influência da tecnologia. Não só o sujeito não é mais o mesmo, mas os aparelhos sociais que o rodeiam também não o são. Todo um complexo é lançado sobre esse sujeito.

Urbanismo, economia, manicômios, prisões, leis, ciências sociais (essas são chamadas a dar uma perspectiva ao sujeito), nova organização política. O sujeito é chamado a ser esquadrinhado. É o poder em ação. É o saber em ação. Todo um sistema é detonado na ordem econômico / social a dar um sentido ao sujeito, qualquer que seja. A um sujeito que no momento de sua criação estava fadado a morte. A sobrevivência do sistema capitalista depende da sobrevivência do sujeito.

Mas qual a reação da massa a esse jogo quase invisível? Mais precisamente, qual a reação da massa em relação a dois pontos distintos: a) sua reação em relação à tecnologia pura e simples e b) sua reação a todo jogo de simulacro que fora despejado sobre si? Parece mas não é a mesma questão. A tecnologia não alterou apenas as relações do sujeito consigo mesmo, como também alterou as relações daquilo que girava ao redor do sujeito e suas relações para com ele. A segunda questão já foi discutida anteriormente. Nos resta agora discutir a primeira.

A estratégia do sujeito ao contrário de todo conceito simulado que fora depositado sobre ela - mais especificamente a dialética com sua explosão social - foi fazer absolutamente nada. Como aliás nunca na história o fez. E é precisamente no fato de não fazer nada que está sua maior força. É a irredutibilidade das massas contra a redutibilidade do poder que as atravessa. As atravessa e nelas se perde, se dissipa. É na negação em ser qualquer coisa ou qualquer ser que está a grande força das massas. Nesse momento já se pode substituir sujeito por massa. Massa no sentido de resíduo estatístico, como aquela parcela que não entra em nenhuma teoria, não e mensurada em nenhum levantamento.

A massa não é alienada politicamente, porque ela sempre foi apolítica. Não é irracional porque nunca foi racional. A massa sempre trabalhou com a imagem nunca com o conteúdo ou a idéia. Nem Deus resistiu a essa inexorável irredutibilidade. Todo o social visa o esquadrinhamento da massa e na pura e simples apatia em relação a esse jogo encontra-se a maior força da massa. Quanto maior seu desprezo pelo social maior o esforço do social em obter uma resposta da massa. A massa tem de responder, tem de ser alguém, mas não responde a nada. Não é uma recusa violenta em ser alguém, mas a simples e apática reação em não ser nada. Nossas ciências não estão preparadas para analisar o nada. O nada é o buraco negro que se torna a massa. Tudo a atravessa e nada a atinge.

A relação de energia ou recurso que é despendida sobre a massa também é absurdamente desigual. A energia que entra é assustadoramente maior que a que sai das massas. E cada vez mais as massas precisam de energia. E todo sistema é voltado a dar-lhe essa energia. Se querem que elas consumam - elas consomem, mas tudo, indiscriminadamente; qualquer coisa, qualquer inessencialidade. Elas hiper-realizam o sistema. E nessa hiper-realização de consumo de energia reside sua força.

Elas não negam qualquer identificação que as dêem. São refratárias a elas, desviam seus sentidos e os transformam em pura e simples aparência. Se lhes criam a homossexualidade, elas vão brigar pelo direito a homossexualidade. Se lhes dizem políticas respondem com um puro e simples desprezo por qualquer representatividade. A representatividade política não passa de um simulacro, porque as massas simplesmente não permitem qualquer modelo de representação. E o político orbita pelo simulacro do social, necessita do social para justificar sua existência conquanto fenômeno de representatividade. Política fora, pela indiferença da massa reduzida a cinzas, ao feriado do dia de votação, ao simulacro da cobertura jornalística na televisão. É na apatia política da massa que reside o fracasso do político. Não é mais o político que oferta o circo. Ele é o próprio circo.

Fracasso do urbanismo. Qualquer projeto primeiro de adequação das massas no espaço urbano fora destruído pela indiferença do espaço urbano. O urbanismo como forma de intervenção econômica a dar um sentido para as massas é fracassado. Basta um olhar no espaço urbano de qualquer grande cidade. Basta olhar para a cidade de São Paulo. A favela convive pacificamente com o luxo; ambos lado a lado sem convulsão social. Não pelas massas serem alienadas, não que essas estejam perdendo. Sua presença pura e simples no espaço urbano é sua vitória. Vitória contra um sistema que insiste em dar sentido a um sujeito. Nesse contraste elas deixam claro que não existe sujeito, que não existe promessa, que não existe salvação, que não existe nada. Nesse sentido a favela transforma todos em massa.

A favela é um espaço por demais curioso. É o simulacro de toda uma estrutura. É a hiper-realização de um sistema pela completa negação do social. E é pelo isolamento de uma comunidade dentro do espaço urbano que reside seu cinismo. Possui sua própria lei (que objetivamente é lei alguma), seu próprio ritmo, sua característica própria de explosão - e ao mesmo tempo que explode no cerne social, implode com todos os conceitos que se tenta projetar sobre ela. A favela é a implosão da intelectualidade. É a implosão das ciências sociais. A luta da sociedade organizada é levar o social na forma do Estado para dentro da favela. É levar o direito a seus cidadãos. Mal estar para quem está fora da favela. Na sociedade brasileira não existe buraco negro maior que a favela. Nada é mais cínico. Nada é pior que o mal estar causado por sua visão. Nesse sentido é a vitória da favela sobre o urbanismo.

Qualquer tentativa de identificação via intelectualidade é brutalmente desprezada. Qualquer tentativa de estudo sociológico, histórico ou econômico já nasce abortada. A massa caminha independente de qualquer tentativa de ser intelectualizada. A intelectualidade como o direito só funciona na média da sociedade, nunca em seus extremos. Qual a história da favela? Qual a história das decisões políticas que acontecem no seio dessas sociedades? Qual é a economia que se desenvolve nessas estruturas? Essas questões fogem a intelectualidade. Mais precisamente, são as expressões de intelectualidade que não interessam para a massa. A massa trabalha com ídolos, com lendas, com misticismos, com tradições, com simulacro, não com racionalidade. A massa não segue ninguém por suas idéias e sua racionalidade, mas por sua imagem. Tudo que as atravessa vira imagem e é consumido como tal. Toda tentativa de racionalização pura da massa orbita ao seu redor, pois nunca a penetra. A massa é refratária a essas linhas de poder. Um ‘Fla - Flu’ tem mais penetração na massa que qualquer discurso político. Não por ser alienada, mas por sua maior arma ser precisamente essa - a do consumo do simulacro.

A tecnologia na verdade hiper-realizou essa estrutura social do simulacro. O ocidente sempre viveu de mitos, sempre foi-lhe dado um simulacro a acreditar. O que foi o Sistema Funcional Medieval se não um jogo de papéis pré-definidos? Quando desmoronam-se esses papéis a sociedade necessita de uma nova alma, de um novo espírito, de um novo ser. Quando o homem é elevado à completa abstração de um mundo tecnológico, o homem consome esse simulacro com um estado de liquidez surpreendente. Tem fome de ser algo. E só isso lhe interessa. A sociabilidade, o social, a política só lhe interessam como simulacro. O que é a favela se não o grande simulacro dos excluídos no seio da sociedade? Ao negar essas estruturas ou consumi-las como simulacro, as massas minam o poder e o saber. O saber/poder foulcaultianos andam juntos não por serem poderosos, justamente o contrário, por estarem fadados ao isolamento social. Juntam-se por uma questão de sobrevivência.

Todo o consumo e produção desses simulacros é que tomam um papel importante dentro da sociedade. Todo um sistema necessita ser montado a evitar o caos. Os mesmos simulacros que sustentam o capitalismo podem ser sua base de implosão - o próprio sistema hiper-realizado pode ser consumido como simulacro. A favela é uma dessas bases de implosão. O produto cultural é outra base de implosão, já esse menos controlável que o primeiro. A sedução portanto tem de ser reprimida. “Seduzir é morrer como realidade e produzir-se como engano” [BAUDRILLARD J., 19, 79]. Sistema de produção. Tudo deve estar baseado nesse modelo. É a solução encontrada pelo capitalismo. Todo simulacro deve ser devidamente produzido e consumido numa base produtiva. É a versão mais moderna de produto cultural, é a mulher como base produtora de filhos, o homem como base produtora de bens, o cinema como produtor de sonhos, tudo tem de ser uma base de produção voltada para a produção geral da sociedade. É nesse sentido que as favelas são um contra-senso do sistema. São bases produtoras de que? De excluídos. É a explosão dos excluídos.

Paradoxo das sociedades capitalistas. Explosão na produção e implosão no consumo. Tudo explode no capitalismo - produção, população, pobreza, cidades - exceto o consumo da própria realidade. Todo o sentido do real não explode na massa, mas é implodido por ela. Todo o real vira simulacro. A massa é um buraco negro em que todo o real é absorvido sem nenhuma resposta. A vista de uma cidade como São Paulo demonstra bem esse principio: Favela e Riqueza convivem juntos, lado a lado, em um processo de adaptação de ambos que beira a letargia social. Como dois elementos tão distintos podem viver juntos sem uma explosão? Alienação, contrato social, repressão, religião, várias são as teorias. Mas o fato é que não há explosão. A mais absoluta pobreza ocupa o mesmo espaço urbano com a riqueza sem explosão social, numa sociedade onde não existe nenhuma amarra social - polícia? - que impeça a explosão ou a convulsão social. E é nesse buraco negro de implosão de qualquer sentido de realidade que está a força da massa. Nessa sua passividade, nessa sua insistência em ser nada, nem alguém, nem ninguém, simplesmente o vazio, o nada, o incompreensível, o incomensurável, nesse lugar onde a racionalidade não consegue explicar-lhe, nesse lugar onde ela não autoriza ninguém em falar-lhe por si. Talvez a única realidade das massas é que não há sua explosão, e ao contrário dos marxistas, é no não social, é no não esquadrinhamento, é na implosão de sentidos que está sua força.

Mais perigoso que a simples negação do sistema é a sua hiper-realização. É exigir do sistema mais do que ele pode dar. O problema econômico dos desejos ilimitados já traz em si a própria estratégia das massas. O capitalismo já nasce na sua definição com a estratégia das massas. Se querem que elas consumam, elas consomem, mas tudo. E com liquidez. Liquidez essa necessária a massa como forma de identificação. É onde o sistema entra em processo de cobrança. Cobra-se o consumo, cobra-se o direito (ao que quer que seja), cobra-se a cura na medicina, a solução para a falta de empregos. Mas raramente é uma cobrança estruturalizada. Ela em si é um simulacro. É o simulacro da explosão. É o arrastão, é a passeata, é o ‘black-out’, é a greve, é o desequilíbrio do simulacro do social. Mas ainda fica o problema da insuficiência de identificação do sistema. Ao consumir (e nesse sentido entenda-se o fim psicológico do bem adquirido) a identificação cessa. A própria vida útil do bem é projetada a ter uma vida pré- programada - geralmente curta. Nova necessidade de consumo e de identificação. Os dois pólos maximizam-se o processo de liquidez. O da produção na baixa vida útil ou obsolescência programada do objeto, e o da massa no consumo de simulacros. Liquidez total do sistema. Hiper-Realidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(26) -------------------------------.-------------------------------: O uso dos Prazeres - vol.2. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. 7. Ed. Rio de Janeiro, 1994.

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(43) 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (2001 - A SPACE ODYSSEY). Inglaterra, 1966. Direção e Produção Stanley Kubrick.

III.I REFERÊNCIAS FONOGRÁFICAS

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(45) UNTIL THE END OF THE WORLD. U2 . Irlanda, 1991. Letra Bono. Produção Daniel Lanois e Brian Eno. Tema do filme Até o Fim do mundo.

 

 

 

 

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