artigos tecnicos

A produção do sujeito no sistema capitalista - A subjetividade diferencial

Por Ale Esclapes

2.1 AS ESTRUTURAS DE PRODUÇÃO E CONSUMO DA APARÊNCIA.

2.1.1 DA TECNOLOGIA


O objeto artesanal ou tradicional guarda encerrado em si uma função específica, uma determinação pré programada que vem amalgamar-se ao homem. Um ambiente tradicional encerra uma determinação das relações sociais ali existentes. O objeto guarda uma significação, mesmo que essa advenha de uma duplicação de sentidos, de uma ‘epysteme’ das semelhanças. O importante é a existência do algo em si, que encerra além de um sentido uma relação demarcada com a realidade e principalmente com o homem. É o mundo do concreto.


Durante o período da Revolução Industrial aconteceu um outro fenômeno além da “alienação” das massas pelo trabalho - o objeto tecnológico fora dissipado na sociedade. Viu-se a revolução do objeto tecnológico. Nem o pensamento nem a ‘epysteme’ eram as mesmas. No cerne da revolução industrial viu-se uma outra de cunho filosófico - o criticismo kantiano. A coisa em si deixava de existir. Fundava-se a era moderna na filosofia e nas ciências. O mundo saía da determinação de uma verdade do referente - novo mundo das aparências para o pensamento.


O objeto tecnológico encerra em si o nada. Não possui em si nenhuma determinação, nenhuma personalidade, nenhuma relação social pré programada, e em algumas situações nem mesmo função. A indistinção do objeto da linha de montagem, bem como o próprio processo produtivo impede qualquer tipo de amálgama do objeto com o homem. Possui unicamente sua funcionalidade, sua possibilidade de ser algo. É o homem que lhe empresta suas características, dá-lhe sua personalidade. O ambiente moderno é funcional, possui suas características fundadas no homem que é chamado a conferir-lhe uma personalidade, em uma relação de interação. O homem passa por um processo de transferência com esses objetos e a substituir suas relações (no sentido mais amplo do termo - relações de personalização, sexual, de pulsão) por suas relações com os objetos. Para personalizar-se é necessário interagir com os objetos. O objeto passa a significar o próprio homem, seu falo, suas perversões, seu relacionamento com o devir/porvir, vida/morte. Inicialmente dá-se uma transferência narcísica anal para com os objetos. Existe uma transferencia da dinâmica sexual do homem para a dinâmica dos objetos - “Constitui, em relação a esta, uma regressão ao estado anal que se traduz por condutas de acumulação, ordem, retenção agressiva, etc...” [BAUDRILLARD, J., 20,95]


Dessa maneira não houve fundamentalmente uma revolução dos meios de produção, do real, mas sim das aparências. O mundo deixa de se tornar real e passa a tornar-se aparente. O capitalismo opera fundamentalmente uma democratização do objeto tecnológico, da aparência. Muito além de uma eficiência dos meios de produção de bens, este traz também uma produção (eficiente) de aparências. Sociedade menos de consumo de objetos que aparências.

2.1.2 DA APARÊNCIA


Todo um sistema se desenvolve em torno do mais novo produto de massa que o capitalismo trouxe - a aparência. Primeiramente uma relação sem precedentes entre o homem e os objetos. O homem projeta-se nos objetos, e consome-os, na esperança de relacionar-se consigo mesmo, jogo este não realizável, pois os objetos jamais substituirão as relações humanas. O burguês é naturalmente um esquizofrênico frustado - jamais tem a si e nem aos objetos por inteiro.


O burguês perde não só na posse do objeto, mas também para o próprio objeto, na medida em que esse desenvolve-se mais rápido que a própria realidade do homem (aí insuportável pela irreversibilidade do ser existente). “Basta que um objeto se perca para que seja transferido para práticas mentais.” [BAUDRILLARD, J.,20,126]. Justamente onde o homem se perde e é condenado ao mundo das aparências. Não se consome mais realidade, mas aparência - o próprio homem. Não se vende mais objetos, mas personalidades. “O dinamismo estrutural da técnica coagula-se ao nível dos objetos, na subjetividade diferencial do sistema cultural que por sua vez repercute sobre a ordem técnica.” [BAUDRILLARD, J.,20,17].

2.1.3 DO CONSUMO


Longe de suas especificações originais, o objeto transferido para o universo das conotações embarcadas pelo desejo (mais uma criação burguesa que se discutirá adiante) desemboca no consumo de si mesmo. ‘Vende-se uma personalidade’ anuncia o novo regime. Auto-sedução (auto-escravidão) - alienação total. Porém, mesmo na total funcionalidade do objeto, quer em função de sua temporalidade pré-programada ou em função da vantagem do seu diferencial de evolução em relação ao homem, jamais substituirá o homem, nem consigo mesmo, nem nas suas relações sociais.


Consumo infinito. O homem entra numa espiral de consumo, uma eterna procura de si mesmo. A mola propulsora do capitalismo encontra-se fundada na esquizofrenia e frustração do homem moderno - o burguês. Necessidades ilimitadas. A economia dos desejos é tão ou mais importante que a economia dos meios de produção a partir do momento que não se consome mais produtos, mas a aparência de si mesmo.


Obstinação por liquidez. Desejo e liquidez passam a significar a mesma coisa. O burguês tem liquidez de si - o consumo torna-se prioritário. Liquidez de produção. Maior avanço do objeto tecnológico - maior eficiência do sistema em função da diferença estrutural. Maior liquidez do capital - maximização do sistema.


2.1.4 DA PRODUÇÃO


Toda a produção das aparências, porém, não deve ser aleatória. A sociedade burguesa define onde e como tais signos devem ser produzidos. Toda uma sociedade é erguida de maneira que o mundo das aparências esteja sobre controle. Eis aí o recalque do burguês. Nenhum signo deve ser aleatório dentro do sistema. Nenhum signo deve ser duplicado. Todo signo está submetido ao discurso interpretativo. Toda reversibilidade sígnica será castigada. Toda a aparência deverá ser irreversível em sua dinâmica. Impossibilidade de sedução. A sedução é a morte do sistema.


O corpo passa a ser o ponto principal de produção. O discurso interpretativo o recorta e o modela. Seu sexo, sua loucura, sua história, seu organismo, seu falo e tudo mais o que possa relacionar-se com ele - seu território, suas relações em sociedade, etc... Estabelece-se uma nova dinâmica para o poder - inicialmente o recorte do corpo através de um saber-poder. Hoje difuso e sem controle o poder opera em uma rede digital onde os indivíduos são seus terminais. Sociedade digital.


Hiper-Realidade - onde se recebe tudo e não há o que se dar em troca. Outro artefato derivado da produção de objetos tecnológicos. Sempre se adiciona mais, sempre se busca uma dimensão a mais - é o ‘Hi-fi, Duble Stéreo’, etc... O homem mais uma vez em desvantagem em relação ao objeto. O objeto tem o funcional (aquilo para que realmente foi projetado a satisfazer) e muito mais, impossibilitando qualquer interação superior do homem. Facilidades do dia a dia (para o homem ocupado demais) que anulam o trabalho de interação. Nesse sentido a funcionalidade do objeto vem amalgamar-se ao homem, mas não a um corpo, mas um terminal digital.


Se na funcionalidade é que se realizam as aparências do próprio homem, é na inessencialidade do objeto que se toma a essencialidade do homem moderno. Milhões de objetos que vêm salvaguardar nenhuma necessidade. Aqueles objetos que um dia alguém há de usa-los. Vertigem de um objeto para cada necessidade (que no fundo não passa de uma inessencialidade). O capitalismo sobrevive de objetos inessenciais.

2.2 A DINÂMICA SOCIAL DA APARÊNCIA E O SISTEMA CAPITALISTA

2.2.1 A REPERCUSSÃO DA ORDEM TÉCNICA SOBRE A CULTURA


A essencialidade do capitalismo mora, antes que de uma otimização dos meios de produção, de uma otimização dos meios de consumo. Sem consumo indistinto não existe capitalismo. Qualquer teto para o consumo é impensável numa dinâmica capitalista. A própria visão moderna da ciência econômica trás consigo o problema das ‘necessidades ilimitadas’, onde antes apenas residia problemas de ordem de produção e distribuição. Consumo (figurado sob o ícone das necessidades ilimitadas) é um problema econômico relativamente moderno (data da revolu ção industrial).


Dentro dos ícones teóricos da revolução industrial fulgurava não apenas a essencialidade do sistema capitalista mas a essencialidade de uma nova dinâmica psicossocial do próprio homem. A liberdade tão defendida pelos clássicos da era moderna, é de caráter essencial para a nova dinâmica do homem - a liberdade de personalizar-se sob o signo das aparências dos objetos t écnicos.


A dinâmica do Capitalismo acompanha uma dinâmica da relação do próprio homem com o objeto técnico. Liberdade, liquidez, consumo desenfreado de si mesmo, inessencialidade dos objetos, obsessão por tecnologia, hiper-realidade - o capitalismo é guiado em função dessas realidades da irrealidade da vida quotidiana do novo homem, do homem moderno. Toda a produção deve ser (e é) voltada para atender a essa nova dinâmica.


Um ponto a fixar-se no trabalho é o conceito de uma única classe social - a burguesa. Mesmo aquilo que Marx chamou de proletário aqui é tratado como burguesa, em função de, quer em uma temporalidade ou em outra, vem a fazer parte do mesmo jogo de simulacro virtual do objeto técnico. Um outro ponto a destacar-se é que inicialmente as inovações burguesas foram realizadas em primeiro lugar na própria ‘burguesia’ latente “Ao contrário, as técnicas mais rigorosas foram formadas e, sobretudo, aplicadas em primeiro lugar com mais intensidade nas classes economicamente privilegiadas e politicamente dirigentes.” [FOUCAULT, M.,25,113], sendo depois levadas ao resto da população. Um ponto comum em toda a sociedade - alienação em relação ao objeto funcional. Democratização total.

2.2.2 A REVERSIBILIDADE SÍGNICA


Estabelecido o mundo das aparências, toda reversibilidade sígnica, ou melhor, colocando, toda sedução deve ser banida. Nada deve intervir na ordem das aparências. Não que essa seja superior à sedução - e não o é. Porém, a sedução é a única que pode reverter a ordem das aparências. Não sob um signo dialético, pois não existe dialética na sedução. “Sedução é morrer como verdade e produzir-se como engano.” [BAUDRILLARD, J.,19,79]. Sedução é a reversibilidade das aparências, das produções sígnicas.


Todo tipo de produção sígnica é admitido, mas nunca sua reversibilidade. Eis o motivo porque toda sedução é expurgada da sociedade. Projeto inútil, entretanto. Mesmo as armas utilizadas possuem uma aparência - aí são passíveis de serem seduzidas. Sedução fria, eis o projeto. Máxima em extensão e mínima em intensidade. Tenta-se matar a sedução por sufocamento, por negação. Não se nega o que não existe. Sistema de autopromoção, auto-sustentação.

2.2.3 O DISCURSO INTERPRETATIVO


O discurso interpretativo é profundamente marcado pela ausência de sedução. Esta foi a técnica utilizada pelo novo sistema para aniquilamento da sedução. No corpo - onde historicamente é confundido no ser humano a sedução, como se o corpo fosse seu habitat - e tudo que gira ao seu redor foi alvo dessa nova técnica. O poder, que historicamente era marcado pelo direito de morte, passa a atuar sobre esse corpo, marcando a era do direito a vida. O poder agora recorta o corpo através de um saber-poder.


Economia, sociologia, antropologia, loucura, urbanismo, sexualidade, entre outros - invenções, novos campos da ciência do homem moderno. O burguês tem necessidade de liquidez de si. Necessita de uma explicação de si. O saber o recorta, impõe novos padrões, novas formas de relacionamento consigo e com o meio. Todo o corpo é estudado - seus poros, sua mente, seu sexo - na busca de maximização do maior patrimônio do burguês. O corpo do burguês é o sangue do nobre.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

I.I OBRAS GERAIS


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I.II OBRAS DE TEORIA ECONÔMICA.


(11) MARX, Karl. O Capital. Trad. G. W. Morgado. São Paulo: Ediouro, (198-)

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(24) -------------------------------. As Palavras e as Coisas. Trad. Salma Tannus Muchail. 6. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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(26) -------------------------------.-------------------------------: O uso dos Prazeres - vol.2. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. 7. Ed. Rio de Janeiro, 1994.

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(31) KANT, Emmanuel. Crítica da Razão Prática. Trad. Afonso Bertagnoli. Rio de Janeiro: Ediouro (199-).

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(34) NÉRICI, Imídeo Giussepe. Introdução à Lógica. 9. Ed. São Paulo: Nobel, 1985.

(35) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Geneologia da Moral Trad. A.A. Rocha. Rio de janeiro: Ediouro, (198-)

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(37) PARKER, Richard G. Corpos, Prazeres e Paixões. Trad. Maria Therezinha M. Cavallari. São Paulo: Best Seller, 1991.

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(39) WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. Luiz Henrique Lopes Santos. 2. Ed. São Paulo: Edusp, 1994.

II.I REFERÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS


(40) ATÉ O FIM DO MUNDO (UNTIL THE END OF THE WORLD). Alemanha/França/Austrália, 1992. Direção Win Wenders. Produção Jonathan Taplin e Anatole Dauman.

(41) BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (BLADE RUNNER). EUA, 1982. Direção Ridley Scott. Produção Michel Deeley.

(42) ENIGMA DO OUTRO MUNDO (THE THING). EUA, 1984. Direção John Carpenter. Produção David Foster e Lawrence Turman.

(43) 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (2001 - A SPACE ODYSSEY). Inglaterra, 1966. Direção e Produção Stanley Kubrick.

III.I REFERÊNCIAS FONOGRÁFICAS

(44) ALAGADOS. Os Paralamas do Sucesso. Brasil, 1987. Letra Herbert Viana. Produção EMI-Odeon Fonog. Ind. e Eletr. Ltda.

(45) UNTIL THE END OF THE WORLD. U2 . Irlanda, 1991. Letra Bono. Produção Daniel Lanois e Brian Eno. Tema do filme Até o Fim do mundo.

 

 

 

 

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