
artigos para inspiracaoAnsiedade antropológicaPor Ale Esclapes O homem é um animal cuja família vive na face da terra a milhões de anos, mas apenas a milhares de anos se constituiu aquilo que chamamos de civilização. Nossos genes, nossos instintos estão, portanto, moldados muito mais pelos milhões de anos de florestas e lugares inóspitos que as grandes cidades. Um animal na floresta esta cercado de perigos, sendo que podemos caracterizar como perigo aquilo que atenta contra a sua vida ou de sua cria. É uma questão muito importante perceber quando o perigo se aproxima para se dar uma resposta rápida a ele, e assim evitar a morte. A ansiedade é um aviso que de que algo perigoso está próximo. É um sinal de alerta. Pode-se traduzir também ansiedade como “ter medo de...”. O corpo então se prepara para se defender do inimigo ou fugir. Dá-se início a uma série de reações químicas dentro do corpo, como por exemplo, uma maior produção de adrenalina, que tem por objetivo deixar a pessoa alerta, diminui sua capacidade de sentir dor, o que permite um sobreuso do corpo por um curto período de tempo. Esse mesmo sistema que garantiu a sobrevivência da espécie parece que nos últimos anos está entrando em colapso, se analisarmos que os transtornos de ansiedade acompanham vários quadros psiquiátricos, ou são responsáveis indiretos por outros transtornos. Mas será? Precisamos nesse sentido fazer uma comparação naquilo que nos parece fundamental no homem civilizado em contraste aos seus antepassados. Nós, os civilizados, criamos algo chamado cultura, ou em outras palavras, substituímos parte dos genes, que são difíceis de moldar, por um estrutura simbólica, a cultura, muito mais plástica do que os genes, permitindo um aprendizado mais rápido, o uso de utensílios, etc. ... Mas um sistema não necessariamente acompanha o outro, e aquilo que objetivamente deveria servir como sinal de alerta contra perigos, é simbolizado em nossa cultura, e um dispositivo que teria características específicas passa a ser acionado diante de situações de mais amplo espectro. Por exemplo: ficar sem acesso a internet pode causar uma crise de ansiedade, bem como um pneuzinho a mais. Mas nenhum deles representa um sinal de ansiedade assim como interpretado pelo corpo como a um milhão de anos atrás. É justamente esse deslocamento entre a cultura e o corpo, ou entre outras palavras, entre o psique e o soma, a mente e o corpo é que vem provocando uma avalanche de sintomas de ansiedade. Chamaremos aqui sintoma de ansiedade quando o dispositivo de ansiedade é acionado quando não é necessário do ponto de vista de um primata. Em outras palavras precisamos buscar menos no corpo e mais na cultura os motivos da ansiedade. O que a pessoa que sofre com ansiedade teme? Essa é uma resposta muitas vezes que é muito pessoal, mas podemos listar uma série de fatores que são comuns a quase todas as pessoas, desde alguns mais objetivos, até alguns mais subjetivos:
A questão aqui é que muitos medos são inconscientes e não conscientes. Por exemplo, pode-se ter medo de se perder um emprego, mas o medo mais profundo pode ser o de não ser um bom pai ou uma boa mãe. O medo de não ser aceito pode estar ligado ao medo de não ser tão bela ou belo quanto se imagina que se é. A psicanálise nesse sentido tem uma contribuição valiosa quando liga esses medos inconscientes a sintomas físicos, estabelecendo assim uma psicossomática do medo. Mas o medo também está ligado a outros fatores que analisaremos nos próximos encontros.
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